1. (Fuvest 2013) Leia o seguinte
texto.
O autor pensava estar
romanceando o processo brasileiro de guerra e acomodação entre as raças, em
conformidade com as teorias racistas da época, mas, na verdade, conduzido pela
lógica da ficção, mostrava um processo primitivo de exploração econômica e
formação de classes, que se encaminhava de um modo passavelmente bárbaro e
desmentia as ilusões do romancista.
Roberto
Schwarz. Adaptado.
Esse texto crítico
refere-se ao livro
a)
Memórias
de um sargento de milícias.
b)
Til.
c)
O
cortiço.
d)
Vidas
secas.
e)
Capitães
da areia.
Resposta:
[C]
Roberto
Schwartz refere-se ao romance “O cortiço” de Aluísio de Azevedo o qual, segundo
ele, é mais representativo de práticas recorrentes no Brasil do século XIX do
que demonstrativo dos preceitos deterministas da escola naturalista que
justificava a decadência social pela mistura de raças.
2. (Ufrn 2013) O trecho abaixo apresenta dois
pontos de vista distintos acerca das causas e das soluções para a situação de
vida dos capitães da areia.
O padre José Pedro dizia que a culpa era da vida e tudo fazia para
remediar a vida deles, pois sabia que era a única maneira de fazer com que eles
tivessem uma existência limpa. Porém uma tarde em que estava o padre e estava o
João de Adão, o doqueiro disse que a culpa era da sociedade mal organizada, era
dos ricos... Que enquanto tudo não mudasse, os meninos não poderiam ser homens
de bem. E disse que o padre José Pedro nunca poderia fazer nada por eles porque
os ricos não deixariam. O padre José Pedro naquele dia tinha ficado muito
triste, e quando Pirulito o foi consolar, explicando que ele não ligasse ao que
João de Adão dizia, o padre respondeu balançando a cabeça magra.
– Tem vezes que eu chego a pensar que ele tem razão, que isso tudo está
errado. Mas Deus é bom e saberá dar o remédio...
AMADO, Jorge. Capitães
da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 107-108.
Considerando as duas visões presentes no fragmento, Pedro Bala, no final
da trama, adota um ponto de vista que
a)
concilia as posições de João de Adão e de José Pedro.
b)
se aproxima da posição de José Pedro.
c)
diverge das posições de José Pedro e de João de Adão.
d)
se
aproxima da posição de João de Adão.
Resposta:
[D]
Pedro
Bala, no final da trama, se descobre filho de um líder sindical e se torna um
líder revolucionário comunista, aproximando-se da visão de mundo expressa por
João Adão: “E disse que o padre José Pedro nunca
poderia fazer nada por eles porque os ricos não deixariam”.
3. (Ufrn 2013) Observe as ilustrações abaixo,
de autoria do artista plástico Poty, que acompanha algumas edições de Capitães
da areia.

As ilustrações 1 e 2 representam, respectivamente, o
desfecho das personagens
a)
Volta Seca, que termina por integrar um bando de cangaceiros, e
Sem-Pernas, que se suicida numa perseguição policial.
b)
Querido-de-Deus, que ingressa numa companhia de teatro regional, e
Professor, que se transforma no principal mestre de capoeira de Salvador.
c)
Gato, que vai para Ilhéus se juntar ao grupo de Lampião, e João Grande,
que passa a ser considerado o ladrão mais perigoso de Salvador.
d)
Boa-Vida,
que, como pintor, passa a retratar as figuras do Nordeste, e Raimundo, que foi
morto numa briga em meio à greve dos doqueiros.
Resposta:
[A]
No capítulo “Na
rabada de um trem”, Volta Seca sai da cadeia, depois de passar oito dias preso,
e resolve morar com outro grupo de meninos abandonados, em Aracaju. Viajando na
rabada de um trem, sua viagem foi interrompida pelo bando de Lampião, seu
padrinho. O menino, então, integra o grupo de cangaceiros.
TEXTO
PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Morro da Babilônia
À
noite, do morro
descem
vozes que criam o terror
(terror
urbano, cinquenta por cento de cinema,
e
o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral).
Quando
houve revolução, os soldados se espalharam no morro,
o
quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns,
chumbados, morreram.
O
morro ficou mais encantado.
Mas
as vozes do morro
não
são propriamente lúgubres.
Há
mesmo um cavaquinho bem afinado
que
domina os ruídos da pedra e da folhagem
e
desce até nós, modesto e recreativo,
como
uma gentileza do morro.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
4. (Fuvest 2013) Guardadas as
diferenças que separam as obras a seguir comparadas, as tensões a que remete o
poema de Drummond derivam de um conflito de
a)
caráter
racial, assim como sucede em A cidade e as serras.
b)
grupos
linguísticos rivais, de modo semelhante ao que ocorre em Viagens na minha
terra.
c)
fundo
religioso e doutrinário, como o que agita o enredo de Til.
d)
classes
sociais, tal como ocorre em Capitães da areia.
e)
interesses
entre agregados e proprietários, como o que tensiona as Memórias póstumas de
Brás Cubas.
Resposta:
[D]
Apenas
no romance “Capitães da Areia” as tensões sociais entre ricos e pobres se
aproximam das sugeridas nos versos de Drummond, como se afirma em [D].
5. (Fuvest 2011) Entre as
variedades de preconceito enumeradas a seguir, aponte aquelas que o grupo dos
“capitães da areia” (do romance homônimo) rejeita e aquelas que acata e
reforça: preconceito de raça e cor; de religião; de gênero (homem e mulher); de
orientação sexual. Justifique suas respostas.
Resposta:
No grupo dos “capitães de
areia”, meninos de raças diversas convivem sem que haja alguma hierarquia em
relação a isso. Do mesmo modo, não há preconceito quanto à orientação
religiosa, visto que tanto uma mãe de santo quanto um padre têm o respeito do
grupo. Assim, o preconceito de raça e cor e de religião são rejeitados.
No entanto, algumas regras
do grupo reforçam preconceitos: meninas não são aceitas, a princípio, e atos de
homossexualismo levam ao banimento do grupo. Desse modo, o preconceito de
gênero e de orientação sexual são acatados.
6. (Unicamp 2011) Leia a passagem
seguinte, de Capitães da areia:
Pedro Bala olhou mais uma vez os homens que nas docas
carregavam fardos para o navio holandês. Nas largas costas negras e mestiças
brilhavam gotas de suor. Os pescoços musculosos iam curvados sob os fardos. E
os guindastes rodavam ruidosamente.
Um dia iria fazer uma greve como seu pai... Lutar pelo
direito... Um dia um homem assim como João de Adão poderia contar a outros
meninos na porta das docas a sua história, como contavam a de seu pai. Seus
olhos tinham um intenso brilho na noite recém-chegada.
(Jorge
Amado, Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 88.)
a) Que consequências a
descoberta de sua verdadeira origem tem para a personagem de Pedro Bala?
b) Em que medida o trecho
acima pode definir o contexto literário em que foi escrito o romance de Jorge
Amado?
Resposta:
a) Ao descobrir
que o seu pai tinha sido assassinado numa manifestação em defesa dos direitos
dos estivadores e que sempre se referiam a ele com admiração e respeito, Pedro
Bala começa a adquirir consciência ideológica e manifesta o desejo de seguir as
pisadas do pai, ou seja, tornar-se um líder revolucionário que lutaria contra
as injustiças sociais.
b) “Capitães da
Areia” foi publicado em 1937, momento em que o Brasil vivia a ditadura Vargas
que reprimia ideias comunistas a que eram associadas as lutas reivindicatórias
de diversas classes sociais.
TEXTO
PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
[Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse,
alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos
(talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre
longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens
que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca
tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava “meu padrinho” e
que o surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu
fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os
seus olhos e faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando
os soldados bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta.
Em cada canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas
suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela
hora. Corria na saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A
perna coxa se recusava a ajudá-lo. E a borracha zunia nas suas costas quando o
cansaço o fazia parar.
A princípio chorou muito, depois,
não sabe como, as lágrimas secaram. Certa hora não resistiu mais, abateu-se no
chão. Sangrava.
Ainda hoje ouve como os soldados
riam e como riu aquele homem de colete cinzento que fumava um charuto.
(Jorge Amado. Capitães da areia.)
7. (Unifesp 2011) O emprego da
figura de linguagem conhecida como “prosopopeia” (ou “personificação”) põe mais
em evidência a principal razão pela qual Sem-Pernas é estigmatizado. O trecho
que contém essa figura é
a)
A
perna coxa se recusava a ajudá-lo.
b)
Em
cada canto estava um com uma borracha comprida.
c)
(...)
depois, não sabe como, as lágrimas secaram.
d)
E
a borracha zunia nas suas costas (...)
e)
Mas
de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora.
Resposta:
[A]
Na frase “A
perna coxa se recusava a ajudá-lo” existe a personificação de “perna”, o que
coloca em evidência a causa de rejeição social de que Sem-Pernas era vítima: o
defeito físico.
8.
(Unicamp 2010) Leia o
trecho a seguir, do capítulo “As luzes do carrossel”, de Capitães da Areia:
O sertanejo trepou no carrossel, deu corda na
pianola e começou a música de uma valsa antiga. O rosto sombrio de Volta Seca
se abria num sorriso. Espiava a pianola, espiava os meninos envoltos em
alegria. Escutavam religiosamente aquela música que saía do bojo do carrossel
na magia da noite da cidade da Bahia só para os ouvidos aventureiros e pobres
dos Capitães da Areia. Todos estavam silenciosos. Um operário que vinha pela
rua, vendo a aglomeração de meninos na praça,
veio para o lado deles. E ficou também parado, escutando a velha música. Então
a luz da lua se estendeu sobre todos, as estrelas brilharam ainda mais no céu,
o mar ficou de todo manso (talvez que Iemanjá tivesse vindo também ouvir a
música) e a cidade era como que um grande carrossel onde giravam em invisíveis
cavalos os Capitães da Areia. Nesse momento de música eles sentiram-se donos da
cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles
sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música. Volta
Seca não pensava com certeza em Lampião nesse momento. Pedro Bala não pensava
em ser um dia o chefe de todos os malandros da cidade. O Sem-Pernas em se jogar
no mar, onde os sonhos são todos belos. Porque a música saía do bojo do velho
carrossel só para eles e para o operário que parara. E era uma valsa velha e
triste, já esquecida por todos os homens da cidade.
(Jorge
Amado, Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 68.)
a) De que modo esse capítulo estabelece um
contraste com os demais do romance? Quais são os elementos desse contraste?
b) Qual a relação de tal contraste com o tema
do livro?
Resposta:
a) O contraste
deste capítulo com os restantes do romance estabelece-se, sobretudo, na
descrição das sensações vivenciadas pelos meninos, o que os remete ao clima de
uma infância perdida: enlevo e alegria ao andar no carrossel, encanto com a
música, proteção emocional ao saberem-se todos irmãos. Essas sensações contrastam
com as preocupações pela sobrevivência do cotidiano, com a existência cruel das
situações precárias e de alto risco que enfrentavam diariamente. Este capítulo
remete as crianças a esse espaço que lhes foi roubado pelas circunstâncias
adversas do meio em que nasceram ( “O rosto sombrio de Volta Seca se abria num
sorriso”, “ escutavam religiosamente aquela música”, “ se sentiram irmãos”).
b) O romance
tematiza a infância abandonada, a marginalização a que é submetida, o descaso e
o preconceito que se abatem sobre ela. O contraste evidenciado no capítulo “As
luzes do carrossel” põe em evidência as injustas condições a que é submetida a
criança, que, mesmo delinquente, não deixa de ser criança, grupo de seres
frágeis e carentes, meninos abandonados à sua própria sorte com aspirações e
sensações típicas de um universo infantil. Trata-se de uma obra de denúncia
social e, como tal, evidencia a tese determinista de que o meio influencia o
comportamento e contribui para o destino trágico dessas crianças.
9. (Enem 2010) Texto I
Logo depois transferiram para o trapiche o depósito dos
objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava.
Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais
estranhas, porém, que aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades
as mais variadas, desde os nove aos dezesseis anos, que à noite se estendiam
pelo assoalho e por debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que
circundava o casarão uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava,
mas com os olhos puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos presos às
canções que vinham das embarcações...
AMADO,
J. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008
(fragmento).
Texto II
À margem esquerda do rio Belém, nos fundos do mercado de
peixe, ergue-se o velho ingazeiro – ali os bêbados são felizes. Curitiba os
considera animais sagrados, provê as suas necessidades de cachaça e pirão. No
trivial contentavam-se com as sobras do mercado.
TREVISAN,
D. 35 noites de paixão: contos escolhidos. Rio de Janeiro:
BestBolso, 2009 (fragmento).
Sob diferentes
perspectivas, os fragmentos citados são exemplos de uma abordagem literária
recorrente na literatura brasileira do século XX. Em ambos os textos,
a)
a
linguagem afetiva aproxima os narradores dos personagens marginalizados.
b)
a
ironia marca o distanciamento dos narradores em relação aos personagens.
c)
o
detalhamento do cotidiano dos personagens revela a sua origem social.
d)
o
espaço onde vivem os personagens é uma das marcas de sua exclusão.
e)
a
crítica à indiferença da sociedade pelos marginalizados é direta.
Resposta:
[D]
As
descrições de ambiente predominam nos textos I e II, permitindo ao leitor
perceber a exclusão social de que são vítimas os personagens. No texto I, os
meninos de “Capitães da Areia”, que “à noite se estendiam pelo assoalho e por
debaixo da ponte”. No texto II, os bêbados, que dormem “nos fundos do mercado
de peixe”, à margem do rio Belém.
10. (Ufpe 2001) "Irmão
... é uma palavra boa e amiga. Se acostumaram a chamá-la de irmã. Ela também os
trata de mano, de irmão. Para os menores é como uma mãezinha. Cuida deles. Para
os mais velhos é como uma irmã que brinca inocentemente com eles e com eles
passa os perigos da vida aventurosa que levam.
Mas nenhum sabe que para Pedro Bala, ela é a noiva. Nem mesmo o
Professor sabe. E dentro do seu coração Professor também a chama de
noiva."
(Jorge Amado:
"Capitães da Areia").
Considerando a obra e o autor do texto, assinale a alternativa
INCORRETA.
a)
O autor faz
parte do romance regional de 30, quando se aprofundaram as radicalizações
políticas na realidade brasileira.
b)
Jorge Amado
representa a Bahia, "descobrindo" mazelas, violências e identificando
grupos marginalizados e revolucionários em "Capitães da Areia".
c)
Dora, Pedro
Bala e Professor são alguns dos personagens da narrativa, que aborda a
dramática vida dos camponeses das fazendas de cacau no sul da Bahia.
d)
O tom da
narrativa aproxima-se do Naturalismo, alternando trechos de lirismo e crueza. O
nível de linguagem é coloquial e popular.
e)
"Capitães da Areia " pertence à
primeira fase da produção de Jorge Amado, quando era notório seu engajamento
com a política de esquerda. Daí o esquematismo psicológico: o mundo dividido em
heróis (o povo) e bandidos (a burguesia).
Resposta:
[C]
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